Archive for the ‘Histórias Infantis’ Category

Rapunzel

sexta-feira, novembro 16th, 2012

 

Estes dias eu me lembrei de mais uma estorinha infantil… Rapunzel…

Vamos relembrá-la?

 

Um casal vivia no meio do mato (eu diria no meio do nada) e o homem trabalhava como lenhador. Tinham como vizinha uma bruxa egoísta (na minha opinião, por se tratar de uma bruxa, egoísmo é o menor dos defeitos). No quintal da bruxa havia um pomar bonito e uma horta maravilhosa. A bruxa, que de boba não tem nada, construiu um muro bem alto cercando a sua propriedade para que ninguém visse o que havia dentro.

A estória diz que a esposa do lenhador estava grávida do primeiro filho e que de uma de suas janelas podia ver todo o quintal da casa da bruxa. Ficava horas olhando os rabanetes cheia de vontade.

Um dia a mulher ficou doente. Não conseguia comer nada e só pensava nos rabanetes. Aí o marido teve a brilhante idéia de pular o muro e pegar os rabanetes no quintal da bruxa. A sua esposa passou a alimentar somente destes rabanetes e, com isto, ele teve de voltar ao quintal da bruxa várias vezes para pegar os rabanetes.

Num belo dia a bruxa, juntamente com seus corvos, o surpreendeu dando um flagrante no seu ato. Apesar do homem tentar explicar-se a bruxa exigiu, como pagamento pelos roubos, a criança que estava por nascer. O homem ficou tão apavorado que não conseguiu negar o pedido da bruxa.

Pouco tempo depois nasce a criança. E pouco tempo depois do nascimento a bruxa aparece para buscar a menina. Os pais choraram e imploraram para não levar a criança, mas não teve jeito. Ela levou assim mesmo e deu o nome dela de Rapunzel.

Com o passar dos anos Rapunzel foi ficando cada vez mais bonita. Aí a bruxa prendeu ela numa torre no meio da floresta. Esta torre não tinha portas para entrar, só uma janela no alto. Para entrar Rapunzel tinha de jogar para fora da janela o seu cabelo em forma de tranças que a bruxa usava para escalar e chegar até o alto.

Um príncipe que passava por ali viu a cena da bruxa pedindo para Rapunzel jogar as tranças e escalando. Quando a bruxa foi embora ele gritou para Rapunzel jogar as tranças (da mesma forma como a bruxa fazia) e escalou indo encontrar a menina (que já estava bem crescida).

Os dois começaram a namorar, mas as escondidas da bruxa.

Num belo dia Rapunzel comenta para a bruxa que ela estava mais pesada que o príncipe. Foi aí que a bruxa descobriu tudo. Cortou as tranças de Rapunzel e seus corvos a levaram para o deserto. A bruxa ficou na torre esperando o príncipe. Quando ele chamou por Rapunzel a bruxa joga as tranças. Quando o príncipe estava chegando na janela a bruxa solta as tranças fazendo ele cair.

Na queda o príncipe cai em cima de umas roseiras e os espinhos furam seus olhos, tornando-o cego. Mesmo cego o príncipe foi procurar por sua amada, tateando e gritando seu nome. Andou por alguns dias até que atingiu o deserto e encontrou Rapunzel.

Quando ela o encontrou viu que estava cego. Começou a chorar e suas lágrimas caíram nos olhos do príncipe e ele voltou a enxergar. Aí os dois foram para o palácio, casaram e levaram os pais de Rapunzel para morar com eles.

A bruxa, com raiva, trancou-se na torre e nunca mais saiu de lá.

 

Esta foi a estorinha que eu tanto ouvi quando era criança. Gostava desta estorinha… Mas hoje é impossível não pensar no grande volume de inconsistências que existem.

Vamos lá.

A bruxa construiu um muro alto em volta da sua propriedade, mas da janela da casa do lenhador podia ver o pomar? Então o muro não cercava tudo, né?

A esposa do lenhador estava com desejo de comer rabanetes. Isto ficou bem claro. O que não ficou claro é que o cara tinha de roubar? Como assim? Eu tenho uma esposa grávida com desejo e isto é o suficiente para justificar um roubo? Ainda bem que ela queria rabanetes, imagine se ela quisesse caviar? Ele teria de roubar um banco pra comprar o caviar… Mas, ok, ele pulou o muro da propriedade da bruxa pra roubar os rabanetes. Mas aí vem a pergunta: Pra que ele pulou o muro (alto, como descrito na estória) se tinha uma janela que dava para o quintal da bruxa??? Não entendi pra que ele tinha de pular o muro.

Ok. Ele pulou o muro. Vamos ignorar este fato.

Vou ignorar o fato de que considero o desejo de gravidez como frescura… A bruxa pegou ele roubando os rabanetes. Detalhe: Estavam na cena a bruxa, o lenhador ladrão e os seus corvos… Se for corvo (o pássaro) é o mesmo que nada. Mas imagino que corvo seja o nome dado aos capangas dela. Aí sim é motivo de preocupação. Mas se for só ela dá pra encarar na porrada.

Agora sim começa uma parte que é bem comum em todas as estórias infantis: O homem (ou o marido) é um verdadeiro covarde, ou inerte. A bruxa cismou que queria como pagamento pelos rabanetes (vegetais, vamos lembrar) uma criança que nem havia nascido ainda. Querer ela pode querer o que quiser (eu quero muito uma Ferrari), mas ter é outra história. Se fossemos colocar as coisas em valores, uma criança (ou uma vida humana) vale muito mais do que alguns rabanetes. Dependendo da negociação a bruxa podia levar até a esposa…

Pouco depois deste episódio a criança nasce e os pais se desdobram em atenção e cuidados. E depois chega a bruxa exigindo a criança. O que me espanta é que o pai já sabia que isto iria acontecer. Por que não se preparou adequadamente? Uma arma qualquer já dava pra começar, ou fugir do lugar também resolveria. Mas não, o cara ignora o aviso dado anteriormente e segue a vida…

A bruxa aparece e leva a criança sem nenhuma briga, nenhuma luta… Que pais são estes??? A bruxa (uma mulher) quer levar uma criança e os pais fazem, no máximo, chorar? Se foi assim realmente foi melhor a bruxa levar mesmo.

A parte interessante é que a criança cresceu na casa da bruxa, que era vizinha do casal!!! Como era a vida daquele casal? Continuaram vivendo normalmente vendo a filha andando e correndo pela rua mas morando na casa da vizinha??? No mínimo estranho, não é?

A bruxa resolve colocar a menina numa torre no meio do mato. A torre não tinha porta, só uma janela bem lá no alto. Era a única forma de entrar. A menina já devia ser uma moça e nunca havia cortado o cabelo na vida (fico imaginando aquela cabeleira, sujeira, fungos, insetos, enfim, vida naquele emaranhado todo) então colocou a garota no alto da torre e para entrar ela jogava o cabelo (que estava na forma de trança), com isto a bruxa escalava a torre até chegar na janela.

Isto é, sem sombra nenhuma de dúvida, a maior incoerência desta estória! Alguém aí já experimentou fazer isto? Se não experimentaram, acho que vale a pena experimentar. Coloque uma corda no alto de uma árvore e tente escalar. Agora vamos lembrar que a bruxa não era nenhuma atleta em plena forma. E o outro lado? Como é que a garota aguentava sustentar o peso de uma pessoa no cabelo? Não sei se me entendem, mas imaginem alguém puxando o seu cabelo com a força do próprio peso. Nem gosto de imaginar. O fato é que isto torna a coisa toda impossível.

Pode ser que alguém diga que a bruxa era ajudada a subir (os corvos?), mas a estória desmente isto quando a Rapunzel diz que o príncipe pesava menos que a bruxa.

Já que começamos a falar do príncipe. Eu acho que ele podia ter dinheiro e beleza, mas no dia que Deus distribuiu inteligência ele não compareceu. Eu admitio ele usar as tranças da pobre garota apenas na primeira vez. As outras vezes bastava trazer do reino de onde ele era príncipe uma ESCADA!!! Dava até pra tirar a garota dali na segunda visita e deixa a bruxa caçar encrenca com ele pra ver no que vai dar.

Mas nããããooo… Ele preferiu forçar o couro cabeludo da garota toda vez.

Quando a bruxa descobre, corta as tranças dela e faz uma armadilha para o príncipe. Os corvos (sempre estes malditos corvos) levam a Rapunzel para o deserto e a deixa ali sozinha vagando. Enquanto isto a bruxa espera o príncipe para dar uma lição no pobre coitado. Ela joga as tranças, ele faz a escalagem e quando chega no alto a bruxa solta as tranças. Ele esborracha e, como dano, tem APENAS os olhos perfurados pela roseira… É um cara de muita sorte, não??? Não quebrou nenhum osso? Nenhum machucado. Não bateu a cabeça? Realmente muita sorte… Nasceu de novo, o rapaz.

Aí o sujeito sai perambulando cego (apenas cego) no meio da floresta até atingir o deserto. E isto durou vários dias. A Rapunzel, numa condição destas, com toda certeza estaria morta (sem água, num calor escaldante pelo dia e frio a noite). Mas ele também estaria morto, pois sem enxergar ele deve ter tomado vários outros tombos além do risco de ser comido por algum animal silvestre (lobo, urso, leão, onça, sei lá). Mas ele conseguiu chegar ao deserto, ou seja, saiu da frigideira para cair no fogo. O curioso é que ele encontra a Rapunzel no deserto… Como assim???

Ele encontra a garota, ela vê que ele está cego, chora e as lágrimas dela banham os olhos dele (ele devia estar no colo dela, né?) e com isto ele volta a enxergar! Ah, dane-se a medicina e a biologia… Lágrima alheia é o melhor remédio para cegueira! rsrsrsrs.

No final, obviamente, eles se casam… Mas felicidade e casamento costumam não andar de mãos dadas… rsrsrs… O legal é que ele fez uma coisa coerente: Levou os pais dela para morar dentro do reino onde ele é príncipe. Fico pensando se eles merecem isto… Mas ele é caridoso, então tudo bem!

A bruxa ficou com raiva e trancou-se na torre… Eu acho que não foi bem assim. Quando ela soltou as tranças para o príncipe cair, foi embora a única possibilidade dela sair da torre. Na verdade ela ficou presa lá, mas como era muito orgulhosa não deu o braço a torcer… Morreu, né? Sem comida e sem água morre fácil.

Eu lembro que desde pequeno eu questiona o motivo do príncipe não usar uma escada pra subir… A pessoa que me contava sempre me dizia que não usou escada porque não tinha… Eu engolia a resposta para não estragar a estória, mas o cara era príncipe!!! Se ele não tinha comprava uma. Se não tinha ninguém vendendo ele mandava seus criados fazer uma e pronto!

Esta é mais uma das estórias que não engolimos nos dias de hoje! E as crianças de hoje não aceitam este tipo de estória porque realmente são super incoerentes.

Mas tudo gira em torno de uma fantasia que gostaríamos que acontecesse, este estar preso e ser salvo… Ou salvar uma linda donzela em perigo… Mas para por aí… Salvar, tudo bem. Namorar, tudo bem. Casar? Não, nem sempre é uma boa idéia! rsrsrs

Chapeuzinho Vermelho

quinta-feira, janeiro 19th, 2012
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Esta é mais uma das estórias que eu ouvia quando pequeno. Acho que ela também merece uma boa análise.

Para quem não se lembra: Havia uma menina que tinha o apelido de Chapeuzinho Vermelho, porque vivia com chapéus e capas vermelhas (eu nunca soube o nome desta garota, não fazia parte da história pois nem a mãe e nem a sua avó sabiam seu nome).

Um dia sua mãe pede a ela que leve uma cesta de comida (na estória falava de guloseimas, mas…) para a sua avó que morava no meio do mato e estava doente. Nunca me explicaram porque uma velha doente morava isolada do mundo. Vai ver ela tinha uma doença contagiosa e foi isolada do convívio dos demais… Voltando para a estória, a mãe recomenda para que a menina pegue o caminho do rio (que é mais longo) pois pelo atalho da floresta havia um lobo mau que devorava as pessoas. No meu entendimento eu JAMAIS mandaria um filho meu correr um risco destes, que mãe mais desnaturada…

A menina distraiu-se e acabou passando pelo caminho da floresta. Ela não conhecia o que era lobo, nem sabia do que se tratava. Então quando o lobo lhe apareceu ela não o reconheceu. Ele disse ser um anjo da floresta (o safado mentiu) e perguntou para onde ela estava indo. Ela mais que depressa disse que estava indo levar a cesta de comida para sua avó. Então o lobo disse que ia na frente afastando os perigos para que ela não tivesse nenhum problema. Ele chega na casa da avó primeiro que ela e a devora. Veste suas roupas e deita na cama.

Quando a menina chega, bate na porta o lobo responde (tentando disfarçar a voz) dizendo que pudesse entrar. Ela entra e aí acha estranho aquela avó daquele jeito e começa aquele diálogo que já sabemos de cor sobre as mãos, os olhos, o nariz e, principalmente, a boca da suposta avó. O lobo se revela tirando as roupas e sai atrás dela correndo.

Sorte da menina que havia alguns caçadores perto que ouviram os gritos e mataram o lobo com um tiro certeiro antes que fizesse algum mal a ela.

Ela fica lamentando pois ele havia devorado a avó. Mas os caçadores disseram que aquele tipo de lobo costumava apenas engolir suas presas sem mastigar, sendo assim, a avó ainda estava viva. Vendo que a barriga do lobo se mexia eles a abriram e retiraram a avó sã e salva.

A partir deste dia houve tranquilidade na floresta por causa do lobo mau que havia morrido.

Como podem ver eu não aguentei nem contar a estória toda sem tecer alguns comentários. Mas consegui me segurar. Vamos a algumas incoerências.

Convenhamos, ô lobo burro, heim? A menina chega pra ele e diz que vai para a casa da avó que fica na floresta. Ele vai na frente e devora a avó. Então ele sabia onde ficava a casa. Por que diabos ele não devorou a menina de uma vez e foi para a casa da avó para a sobremesa? Ou então melhor ainda: Devorava a menina, comia o lanche como sobremesa e no dia seguinte comia a avó. Ou melhor dizendo: Por que aquela velha ainda estava viva se ele sabia onde ela morava? Mas não… Ele preferiu ir na frente correndo e comer a avó primeiro. Tem gosto pra tudo, né?

A menina distraiu e acabou indo pelo caminho da floresta. Bem, haviam dois caminhos, um era pelo rio outro pela floresta… Simplesmente não tem como errar. Num tem água corrente e noutro tem árvores. Como errar??? Se ela errou de verdade, sinto muito, mas esta menina é muito lerda!

Ok. Ela errou o caminho, vamos admitir isto pra não complicar muito. Mas não saber o que é um lobo? Vamos voltar um pouquinho. A mãe disse a ela para não ir pelo caminho da floresta porque lá HAVIA UM LOBO MAU (nem vou comentar sobre a maldade de um animal silvestre que procura satisfazer sua fome). Se ela não sabia o que (ou como) é um lobo não era a hora de fazer uma perguntinha simples? Qualquer criança, por mais inocente (ou lerda) que seja perguntaria: O que é um lobo? Realmente esta foi uma coisa super incoerente.

Aí ela viu um animal na floresta que se apresentou como “Anjo da Floresta”. Nossa, que lindo! Este anjo foi na frente para protegê-la. Que anjo bom! Chegando na casa da avó, quando ela descobre a farsa toda, reconhece o lobo (???). Mas ela não sabia o que era lobo, como assim ela reconheceu o lobo??? Aquele era, afinal de contas, o Anjo da Floresta (e um anjo bom, diga-se de passagem).

Agora vamos para a primeira das grandes incoerências desta estória. Os dois únicos animais que eu sei que são capazes de engoliar uma pessoa e ela continuar viva são: A cobra do filme Anaconda e a baleia Mobi Dick do desenho do Pica-Pau. O resto tem de, no mínimo, partir o alimento para engolir. Se este lobo tivesse uns 20 ou 30 metros de altura eu até poderia acreditar que uma pessoa coubesse no seu estômago intacta. Mas um lobo deste que está na estória? Não! Definitivamente não! E o pior é que ele engoliu a velha e ainda ficou com fome, ou seja, tinha um lugarzinho lá dentro para a menina!!! Só se o corpo dele não tivesse nenhum órgão e fosse constituído apenas de estômago… Mesmo assim depois de comer a velha inteira duvido que ia sobrar espaço para uma garotinha.

A outra grande incoerência é a velha sair lá de dentro intacta. Aplausos para o caçador que deu um tiro na cabeça do lobo, porque se ele atira no peito matava a velha também.

Uma coisa que me chama muito a atenção é que depois que o lobo foi morto, houve paz na floresta. Que bom que lá não havia onças e outros animais que possam causar problemas. E que bom que este lobo era o ÚNICO lobo na floresta.

Esta era uma das minhas estórias favoritas. Ainda bem que cresci!

 

 

 

Marcelo Torres – 18/01/2012

Cinderela

quarta-feira, janeiro 18th, 2012
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Vamos a mais um conto de fadas analisado sob a ótica adulta e racional.
 
Confesso que demorei para lembrar da Cinderela, tive de recorrer aos livros infantis para recordar. A estória é assim:
Um homem tinha uma filha e sua esposa havia morrido. Ele resolve casar novamente. A nova mulher era muito arrogante e tinha duas filhas que eram iguais a ela em tudo. Eu realmente não entendo como um cara pode escolher uma mulher assim pra casar. O que houve com o namoro e noivado? Servem justamente para que se conheça a pessoa com quem vai viver… Mas tudo bem… Continuemos… A filha do primeiro casamento era muito meiga e bondosa. Era colocada para fazer todos os serviços da casa enquanto as outras viviam na vida boa. Enquanto a filha que trabalhava dormia no sótão da casa, as outras dormiam nos quartos.
 
Num belo dia o rei do lugar fez um convite para uma festa onde seu filho (o príncipe) iria escolher uma jovem para se casar com ela. Foi um corre-corre da mulherada na cidade. Afinal de contas um partidão destes não podia passar batido.
 
No dia do baile a Cinderela não foi, pois a madrasta não a levou. Então ela ficou triste, chorou, lamentou, etc. Aparece para ela uma fada. Esta fada pegou uma abóbora e transformou em carruagem. Transformou seis camundongos em cavalos para puxar a carruagem. Pegou um rato e transformou em cocheiro. Transformou seis lagardos em ajudantes. Em seguida transformou os trapos que ela vestia num vestido de dar inveja a qualquer mulher. E fez aparecer um par de sapatos de cristal.
 
Avisou a Cinderela que o encanto todo acabaria após o último toque da meia-noite.
 
Quando chegou na festa os olhos do príncipe (e provavelmente das outras mulheres) foram para ela. A partir de sua chegada o príncipe só ficou com ela. Adeus às outras.
 
Quando o relógio começou a bater indicando ser meia-noite, a menina teve um surto. Saiu correndo em disparada. Já imaginaram alguém de sapato de cristal correndo? Pois é… Ela estava correndo. Um dos sapatos se soltou nesta correria toda. Se correr com dois sapatos de cristal já é complicado, com um só deve ser pior ainda. Mas ela continuou correndo, entrou na carruagem que saiu em disparada, para, daí alguns segundos transformar-se em abóbora, os cavalos e o cocheiro em ratos, os escravos em lagartos e o seu vestido em trapos novamente. Ela voltou correndo pra casa para chegar antes das irmãs e da madrasta.
 
O príncipe pegou o sapato de cristal que ficou e no dia seguinte o rei declarou que a mulher em quem o sapato de cristal servisse casaria com o seu filho.
 
Então saiu um mensageiro do rei com o sapato em todas as casas para que todas as mulheres experimentassem. Não servia em ninguém. Chegou na casa de Cinderela e as irmãs experimentaram sem sucesso. Cinderela pediu para experimentar e, para a surpresa de todos, serviu perfeitamente. Então o mensageiro a levou para a presença do príncipe. Dias depois se casaram e foram felizes para sempre.
 
Bem, vamos a algumas (ou várias) coisas interessantes nesta estória.
 
Uma coisa que me intriga em todas estas estórias infantis envolvendo madrastas é o pai. Cadê o pai desta menina? Aparece só no início do conto apenas para constar que ela não foi filha de chocadeira e pronto. Eu imagino (tenho quase certeza) de que ele não morava na mesma casa porque não dá pra conceber a idéia de um homem ver sua filha andando aos trapos, dormindo no sótão de sua própria casa (porque pelo que me consta ele levou a mulher com duas filhas para dentro da sua casa) enquanto o resto dorme nos quartos. Eu até gostaria de imaginar como é isso… A Cinderela tinha o seu quarto, todo arrumado e etc. Chega a madrasta com duas filhas e coloca ela pra fora do quarto. Como foi esta transição? Ela não reclamou? E o pai? Ficou calado e colocou a própria filha no sótão? Aí está uma bela intriga que jamais será explicada.
 
A outra coisa que me deixa pensando é a festa que rei promoveu. Anunciar que o filho está a procura de uma esposa é o tipo de coisa que vai dar merda. O príncipe queria casar com alguém que goste ou qualquer uma? Pelo visto, qualquer uma servia. Não seria mais interessante proporcionar festas casuais e ele ficar observando se alguma mulher lhe interessa e, a partir disso, construir um relacionamento? Mas não. O rei preferiu partir para algo mais prático. Acho que fez isto porque não era com ele. Mas tudo bem, estas indagações não interferem no curso da estória.
 
A madrasta e as irmãs foram para a festa e não levaram Cinderela. Era de se esperar, obviamente. Eis que aí aparece uma fada. Proporciona tudo o que ela precisava para ir para a festa (carruagens, equipe de apoio, vestido e sapatos). Tudo feito com o encanto da fada. A única restrição: Meia-noite volta tudo ao normal. Mas que fada de araque é esta? Meia-noite é hora que a coisa começa a esquentar. Por que tem de acabar meia-noite? Não podia ser pelo menos as duas da manhã?
 
Ok. Meia-noite. Como era de se esperar, ela tem de sair correndo porque a coisa estava pra acabar. Dá tempo só de sair das vistas do povo todo. Na correria o maldito sapato de cristal fica pra trás. Fazer o que? Não tinha tempo de parar e pegar ele de volta. Daí a pouco tudo volta ao normal. Correção: QUASE TUDO volta ao normal. Esta é uma das grandes incoerências desta estória. Se o sapato de cristal era parte do encanto porque ele não desapareceu? Desapareceu a carruagem, a equipe e o vestido. Por que o sapato também não desapareceu???
 
O príncipe ficou encantado com ela. Então um mensageiro do rei saiu com o sapato de cristal experimentando em todas as mulheres. Aquela em que o sapato de cristal servisse casaria com o príncipe. Eu acho intrigante é o fato de que ninguém na cidade calça o mesmo número de sapato que Cinderela. Como assim? Ninguém? Só ela calça aquele número? E que meio mais ridículo de achar uma esposa. Se for assim ficaria fácil. Compro um sapato número 35 e digo que quem conseguir calçar este sapato eu caso. Obviamente não sou nenhum idiota pra fazer isto… Mas o príncipe é!
 
Óbvio que achou a casa onde Cinderela mora. O sapato serviu em Cinderela. Então ela foi levada ao príncipe que (após alguns dias) casaram e viveram felizes para sempre… É mais um casamento que eu acho que não dura três meses… O príncipe é um moleque mimado que anda na sombra do pai. Então tudo o que o pai quiser ele vai fazer sem hesitar. Que mulher aguenta isso por muito tempo? Outra coisa: Cinderela só casou com ele pra sair de casa. Amor??? Que amor que nada. Ela precisava de um apoio financeiro e conseguiu isto com o príncipe idiota. No fim das contas ela será rainha (o rei morre e é o príncipe que assume). Aí no decorrer do tempo ela vai se apaixonar por outra pessoa e colocar um belo par de chifres na cabeça do príncipe. Na minha opinião ele merece os chifres.
 
É curioso como as estórias terminam com um casamento. Casamento nunca foi sinônimo de felicidade. Tem de ter sentimento, dedicação, renúncia e muita paciência.
 

Joãozinho e Maria

quinta-feira, abril 14th, 2011
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Bom, aí vamos nós com mais uma historinha infantil.
 
Pra quem não se lembra vou resumir aqui.
 
Um lenhador vivia com a esposa e dois filhos (João e Maria). Detalhe, a esposa não era a mãe dos meninos, era a madrasta (sempre a madrasta).
 
Era tempos de vacas magras e eles estavam passando necessidade (coitados, não sabiam plantar). Aí a madrasta teve uma brilhante idéia: Diminuir o número de bocas para alimentar…
 
A idéia foi tosca. Levar os dois floresta adentro e soltá-los lá.
 
O problema é que os dois moleques ouviram a conversa toda. Então o João ajuntou um monte de pedras e quando foram chamados pela manhã, ganharam um pedaço de pão velho e o pai foi levando eles para a floresta. Só que no caminho o João foi jogando as pedras de forma que o caminho ficou marcado para garantir a volta segura.
 
Ok. A noite eles voltaram são e salvos.
 
O pai ficou feliz com o retorno, mas a madrasta não. Então trancou os dois num quarto e falou para levá-los mais longe ainda. Pela manhã deu a eles pão de novo. Mas o João não tinha mais pedras. Então teve uma idéia brilhante: Marcou o caminho com pedaço de pão…
 
Passarinho é um bicho safado que não respeita pedaço de pão no chão, comeram todos os pedaços. Então não havia mais a trilha para seguir.
 
Resultado: Eles não conseguiram achar o caminho de volta e ficaram perambulando pela floresta. Acharam uma cabana feita de chocolate, doces e biscoitos. Menino adora doce, então se esbaldaram. Comeram muito. Apareceu uma simpática senhora que os convidou para entrar e comer mais. Eles foram. Foram sedados e o João acordou dentro de uma jaula. Maria ficou como escrava da senhora que na verdade é uma bruxa.
 
A bruxa devia estar de saco cheio de comer só doce e queria carne. Então o plano dela era comer os dois (um assado e o outro ensopado). Só que o João era meio magrinho, afinal de contas não tinha muito o que comer onde ele morava. Então a bruxa decidiu engordar o João primeiro. Só que a bruxa não enxergava direito, aí todo dia apalpava o dedo do João para ver se estava gordo. O João mostrava a ela, ao invés do dedo, um osso de galinha. Então ela sempre achava que ele estava magro.
 
Num belo dia ela decidiu que ia comer o garoto daquele jeito mesmo, afinal de contas ela devia estar de dieta, comer gordura não faz bem ao coração. Mandou Maria preparar um caldeirão com água para ferver e disse que ia assar um pão. Acendeu o forno e pediu para Maria ver se o forno estava quente. A Maria que não é muito boba disse que não sabia olhar isto. A bruxa foi demonstrar e aí Maria a empurrou para dentro do forno e fechou, matando a bruxa carbonizada.
 
Nem preciso dizer que eles se esbaldaram! Comeram tudo do bom e do melhor e encontraram uma pequena riqueza que levaram com eles. Depois de muito andaram conseguiram reconhecer o caminho e foram até a sua antiga casa. O pai estava choroso porque a madrasta havia morrido de fome, mas ficou muito alegre em vê-los.
 
Com a riqueza que eles traziam não seria necessário preocupações com comida…
 
E foram felizes para sempre!
 
 
Bem, a história que é contada para as crianças acaba aqui… Não dá para não analisar esta historinha e tecer alguns comentários.
 
Toda história infantil tem um pai que é um banana. Que falta de criatividade, viu? O cara só sabia cortar árvore. Aí viu que as coisas não estavam rendendo e não tomou providência nenhuma? Que cara mais burro…
 
Vamos ignorar isto… Vamos para a próxima…
 
A sua esposa propõe uma coisa tosca e ele aceita, comprovando sua burrice.
 
Seu filho é esperto, arrumou uma forma de voltar para casa com as pedrinhas espalhas pelo caminho para fazer uma trilha.
 
Mas uma coisa fica sem explicação. Como é que ele conseguiu levar os filhos para a floresta pela segunda vez? Eles foram amarrados? Porque ninguém ia aceitar isto sem resistência. Ou será que foram hipnotizados? Ou então eles estavam brincando de seguir o mestre com o pai e no meio da floresta brincavam de esconde-esconde. É só assim para o pai conseguir escapar sem eles perceberem. Esta ficou sem explicação mesmo.
 
E outra: O João, ao mesmo tempo que foi inteligente marcando o caminho com pedras, foi extremamente burro marcando com pão. É claro que pão é comida e animais da floresta COM TODA CERTEZA irão comer. Ele não pensou nisto, porque se tivesse pensado seria mais inteligente guardar o pão para ele mesmo comer.
 
Tá bom. Mais uma coisa que engolimos. Vamos em frente.
 
Encontraram uma casa feita de doces, chocolates e biscoitos. Isto é a mais pura e deslavada mentira que já puderam inventar numa história infantil. É a coisa mais ridícula que já li em toda minha vida. Se isto fosse verdade a casa seria feita de doces, chocolates, biscoitos e FORMIGAS. Falei em formiga para ser generoso, pois (lembrem-se) a casa está no meio da floresta e qual animal não gosta de um doce? Ok. Vamos imaginar que a bruxa lançou um encanto para que nenhum animal ou inseto se aproximasse dali (notem que não é implicância de minha parte, eu até tento arranjar uma explicação plausível dentro do contexto da história).
 
A bruxa apareceu e deu um jeito de prender o João. A Maria não ia largar o irmão e mesmo porque a inteligência dela não permite que ela vá muito longe se conseguisse fugir. Então é melhor ficar e ajudar o irmão mesmo.
 
A bruxa não enxergava direito. Ponto negativo pra ela. Que fizesse um encanto para que enxergasse melhor, ué! Que raios de bruxa é esta??? Mas tudo bem…
 
Queria comer o garoto quando ele estivesse gordinho, então checava a sua massa corporal pelo dedo… COMO ASSIM???????? Será que ela não conhece barriga, bochecha, braço e perna? Mas sempre olhava pelo dedo. E o João mostrava um osso de galinha no lugar do dedo. É curioso que ela nunca estranhava que o moleque comia feito um pato e nunca engordava. Ou tinha muito verme (aí não valia a pena comê-lo, porque seria como comer uma goiaba com bicho), ou estava doente (também não valia a pena comê-lo, senão ia pegar a mesma doença) ou ele a estava enganando (o que era mais plausível). Mas, a velha queria ser enganada, né? Tudo bem… Se ela quer…
 
Uma coisa que achei interessante: A Maria mata a velha e os dois roubam seus tesouros. Isto tem um nome: Latrocínio (roubo seguido de morte, ou vice-versa). Leva pelo menos 30 anos de cadeia! Ninguém pensou nisso, né? Pois é… eu pensei!
 
Mas vamos imaginar que o tesouro dela era constituído de diamantes raríssimos e fáceis de carregar, pois eram duas crianças, então não dá para carregar um baú (por exemplo).
 
Eles saíram andando a esmo e… ohhhhhhh… descobriram o caminho de volta!!! Que enorme coincidência!!!!
 
Chegaram na velha cabana e o pai estava lamentando a morte da esposa (madrasta) que morreu de fome. O cara é realmente incapaz de sustentar a família. Abraçou os filhos e estes deram os tesouros que pegaram da bruxa.
 
A história termina com o velho "e foram felizes para sempre"… Mas com tudo isto que vimos não há a menor possibilidade de felicidade neste final.
 
O pai é um vagabundo, não gosta de trabalhar. Isto é fato. Com dinheiro no bolso com certeza iria se enveredar pela bebida, boteco, farra, etc. Com certeza ia colocar dentro de casa uma mulher tal qual a anterior. Provavelmente a próxima mulher ia adotar métodos mais eficazes para "eliminar" os filhos e se ela for inteligente vai tudo parecer uma acidente.
 
Mais uma história que engolimos quando éramos crianças… Interessante como não pensamos nisto quando éramos crianças.. Eu até cheguei a questionar como a casa de chocolate não era comida por animais, mas tive como resposta algo parecido com: "Não sei, só sei que foi assim".
 

Branca de Neve e os Sete Anões

segunda-feira, junho 28th, 2010
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Na noite de ontem meu filho me pediu para contar uma história.
 
Não estava com paciência para inventar uma história (como eu faço as vezes), então vamos às clássicas mesmo. A escolhida foi: Branca de Neve e os Sete Anões.
 
Para quem não sabe (e quem não sabe????) é aquela história de uma menina linda que foi vítima de inveja da madrasta que mandou matá-la. Mas o capanga encarregado de matá-la amarelou e ela fugiu para a floresta. Ficou abrigada numa cabana com sete anões (ela era a gigante do lugar) e para pagar a estadia teve de lavar, cozinhar e dar faxina na casa.
 
Nem precisa dizer que esta farsa foi logo descoberta pela madrasta que tratou de fazer o serviço pessoalmente. Disfarçada, deu a ela uma maçã envenenada, e ela morreu (ou pelo menos parecia morta). No seu velório aparece um príncipe que, diante de tanta beleza, resolveu beijá-la. Este beijo fez com que ela acordasse (se tudo curasse com um beijo…).
 
A história termina com: "E eles se casaram e foram felizes para sempre".
 
Bem, foi assim que eu terminei a história para meu filho que foi dormir alegre e satisfeito.
 
Mas eu continuei a história!
 
COMO ASSIM FORAM FELIZES PARA SEMPRE????
 
Vamos aos fatos: O sujeito vê uma mulher bonita, que aparentemente estava morta. Aí resolve beijá-la porque ficou encantado pela sua beleza. Até aí tem pouca coisa fora do comum. Estou sendo bem generoso ao considerar comum alguém querer beijar uma pessoa que nunca viu antes na vida e que já morreu, mas vamos passar batido por este fato. Então o cara beija a mulher e ela acorda da morte… Isto, na vida real, seria um verdadeiro corre-corre no velório. Imaginem a cena de alguém, num velório, levantando do caixão. Não vai ficar ninguém perto! O povo simplesmente vai voar para fora. Neste momento dramático é cada um por si e pernas pra que te quero!!!
 
Mas, na história não foi bem isto que aconteceu. Todos se alegraram com o fato. Que ótimo. Sinal que ela era muito querida. Vamos partir para esta hipótese porque senão complica muito.
 
Aí ela olha para o sujeito que a beijou e se encanta também.
 
Ah que ótimo! Fórmula perfeita para o casamento! Pronto! A garota e o príncipe se casaram. Mas entre casar e ser feliz para sempre há um imenso abismo.
 
Na verdade este é um casamento que tem tudo pra dar errado! Eles não se conhecem!!! Apenas se viram uma única vez e pronto! Vamos casar!
 
Por trás da beleza do bom moço podem haver uma série de coisas desagradáveis. Imaginem ele chegando em casa no meio da madrugada após uma farra com os amigos na taberna da vila? O cara que vive enfiado em roupas pesadas em cima de um cavalo chegando em casa com um baita chulé. Sem contar que o banho, naquela época, não era algo comum de se fazer (até hoje não é pelas bandas da Europa, mas não vou entrar nisto).
 
E ela? Bonitinha, delicadinha e prendada. Mas não é isenta de defeitos. Deve ser um poço de chatice e frescura. Imaginem ela nos bailes da realeza. O príncipe tem de ficar 100% do tempo ao lado dela porque se alguma mulher se aproximar a casa vai cair! Na menor contrariedade vai querer voltar para casa ou ir para o seu quarto (caso a festa seja no próprio palácio).
 
E os anões? Vai que ela cisma de levá-los para morar com elas (afinal de contas seria retribuir o favor)? Já imaginaram a vida do casal com sete pessoas morando junto com eles? E o pai dela? O cara é um banana, né? Viu a madrasta fazendo merda e não tomou atitude nenhuma… Mas, não vamos entrar nesta questão, o fato é que o pai dela estava sozinho pois a madrasta (e mulher dele) foi morta pelos anões. Já imaginaram a confusão que isto ia ser???
 
Não! Não há a menor possibilidade de haver felicidade após este casamento…
 
Um final perfeito para esta história seria a garota ter morrido, o pai ter acordado do surto psicótico e mandado prender a madrasta num calabouço a pão e água (uma vez por dia) e dar uma boa vida para os sete anões que protegeram a sua filha (fazendo o trabalho que ele deveria ter feito).
 
Mas para não ser tão dramático, há um outro final que poderia ter sido feito: A garota ter ficado encantada pelo rapaz e ele por ela. Daí surgir um namoro duradouro e sério para que eles se conhecessem melhor. O futuro deste namoro? Sinceramente não sei… Não sei se um iria suportar o outro… Mas ela voltaria a morar no palácio junto com o pai e os anões serem amplamente recompensados pela proteção que deram a ela e não precisar mais trabalhar naquela mina que tira a saúde deles.