Archive for janeiro, 2012

Chapeuzinho Vermelho

quinta-feira, janeiro 19th, 2012
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Esta é mais uma das estórias que eu ouvia quando pequeno. Acho que ela também merece uma boa análise.

Para quem não se lembra: Havia uma menina que tinha o apelido de Chapeuzinho Vermelho, porque vivia com chapéus e capas vermelhas (eu nunca soube o nome desta garota, não fazia parte da história pois nem a mãe e nem a sua avó sabiam seu nome).

Um dia sua mãe pede a ela que leve uma cesta de comida (na estória falava de guloseimas, mas…) para a sua avó que morava no meio do mato e estava doente. Nunca me explicaram porque uma velha doente morava isolada do mundo. Vai ver ela tinha uma doença contagiosa e foi isolada do convívio dos demais… Voltando para a estória, a mãe recomenda para que a menina pegue o caminho do rio (que é mais longo) pois pelo atalho da floresta havia um lobo mau que devorava as pessoas. No meu entendimento eu JAMAIS mandaria um filho meu correr um risco destes, que mãe mais desnaturada…

A menina distraiu-se e acabou passando pelo caminho da floresta. Ela não conhecia o que era lobo, nem sabia do que se tratava. Então quando o lobo lhe apareceu ela não o reconheceu. Ele disse ser um anjo da floresta (o safado mentiu) e perguntou para onde ela estava indo. Ela mais que depressa disse que estava indo levar a cesta de comida para sua avó. Então o lobo disse que ia na frente afastando os perigos para que ela não tivesse nenhum problema. Ele chega na casa da avó primeiro que ela e a devora. Veste suas roupas e deita na cama.

Quando a menina chega, bate na porta o lobo responde (tentando disfarçar a voz) dizendo que pudesse entrar. Ela entra e aí acha estranho aquela avó daquele jeito e começa aquele diálogo que já sabemos de cor sobre as mãos, os olhos, o nariz e, principalmente, a boca da suposta avó. O lobo se revela tirando as roupas e sai atrás dela correndo.

Sorte da menina que havia alguns caçadores perto que ouviram os gritos e mataram o lobo com um tiro certeiro antes que fizesse algum mal a ela.

Ela fica lamentando pois ele havia devorado a avó. Mas os caçadores disseram que aquele tipo de lobo costumava apenas engolir suas presas sem mastigar, sendo assim, a avó ainda estava viva. Vendo que a barriga do lobo se mexia eles a abriram e retiraram a avó sã e salva.

A partir deste dia houve tranquilidade na floresta por causa do lobo mau que havia morrido.

Como podem ver eu não aguentei nem contar a estória toda sem tecer alguns comentários. Mas consegui me segurar. Vamos a algumas incoerências.

Convenhamos, ô lobo burro, heim? A menina chega pra ele e diz que vai para a casa da avó que fica na floresta. Ele vai na frente e devora a avó. Então ele sabia onde ficava a casa. Por que diabos ele não devorou a menina de uma vez e foi para a casa da avó para a sobremesa? Ou então melhor ainda: Devorava a menina, comia o lanche como sobremesa e no dia seguinte comia a avó. Ou melhor dizendo: Por que aquela velha ainda estava viva se ele sabia onde ela morava? Mas não… Ele preferiu ir na frente correndo e comer a avó primeiro. Tem gosto pra tudo, né?

A menina distraiu e acabou indo pelo caminho da floresta. Bem, haviam dois caminhos, um era pelo rio outro pela floresta… Simplesmente não tem como errar. Num tem água corrente e noutro tem árvores. Como errar??? Se ela errou de verdade, sinto muito, mas esta menina é muito lerda!

Ok. Ela errou o caminho, vamos admitir isto pra não complicar muito. Mas não saber o que é um lobo? Vamos voltar um pouquinho. A mãe disse a ela para não ir pelo caminho da floresta porque lá HAVIA UM LOBO MAU (nem vou comentar sobre a maldade de um animal silvestre que procura satisfazer sua fome). Se ela não sabia o que (ou como) é um lobo não era a hora de fazer uma perguntinha simples? Qualquer criança, por mais inocente (ou lerda) que seja perguntaria: O que é um lobo? Realmente esta foi uma coisa super incoerente.

Aí ela viu um animal na floresta que se apresentou como “Anjo da Floresta”. Nossa, que lindo! Este anjo foi na frente para protegê-la. Que anjo bom! Chegando na casa da avó, quando ela descobre a farsa toda, reconhece o lobo (???). Mas ela não sabia o que era lobo, como assim ela reconheceu o lobo??? Aquele era, afinal de contas, o Anjo da Floresta (e um anjo bom, diga-se de passagem).

Agora vamos para a primeira das grandes incoerências desta estória. Os dois únicos animais que eu sei que são capazes de engoliar uma pessoa e ela continuar viva são: A cobra do filme Anaconda e a baleia Mobi Dick do desenho do Pica-Pau. O resto tem de, no mínimo, partir o alimento para engolir. Se este lobo tivesse uns 20 ou 30 metros de altura eu até poderia acreditar que uma pessoa coubesse no seu estômago intacta. Mas um lobo deste que está na estória? Não! Definitivamente não! E o pior é que ele engoliu a velha e ainda ficou com fome, ou seja, tinha um lugarzinho lá dentro para a menina!!! Só se o corpo dele não tivesse nenhum órgão e fosse constituído apenas de estômago… Mesmo assim depois de comer a velha inteira duvido que ia sobrar espaço para uma garotinha.

A outra grande incoerência é a velha sair lá de dentro intacta. Aplausos para o caçador que deu um tiro na cabeça do lobo, porque se ele atira no peito matava a velha também.

Uma coisa que me chama muito a atenção é que depois que o lobo foi morto, houve paz na floresta. Que bom que lá não havia onças e outros animais que possam causar problemas. E que bom que este lobo era o ÚNICO lobo na floresta.

Esta era uma das minhas estórias favoritas. Ainda bem que cresci!

 

 

 

Marcelo Torres – 18/01/2012

Cinderela

quarta-feira, janeiro 18th, 2012
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Vamos a mais um conto de fadas analisado sob a ótica adulta e racional.
 
Confesso que demorei para lembrar da Cinderela, tive de recorrer aos livros infantis para recordar. A estória é assim:
Um homem tinha uma filha e sua esposa havia morrido. Ele resolve casar novamente. A nova mulher era muito arrogante e tinha duas filhas que eram iguais a ela em tudo. Eu realmente não entendo como um cara pode escolher uma mulher assim pra casar. O que houve com o namoro e noivado? Servem justamente para que se conheça a pessoa com quem vai viver… Mas tudo bem… Continuemos… A filha do primeiro casamento era muito meiga e bondosa. Era colocada para fazer todos os serviços da casa enquanto as outras viviam na vida boa. Enquanto a filha que trabalhava dormia no sótão da casa, as outras dormiam nos quartos.
 
Num belo dia o rei do lugar fez um convite para uma festa onde seu filho (o príncipe) iria escolher uma jovem para se casar com ela. Foi um corre-corre da mulherada na cidade. Afinal de contas um partidão destes não podia passar batido.
 
No dia do baile a Cinderela não foi, pois a madrasta não a levou. Então ela ficou triste, chorou, lamentou, etc. Aparece para ela uma fada. Esta fada pegou uma abóbora e transformou em carruagem. Transformou seis camundongos em cavalos para puxar a carruagem. Pegou um rato e transformou em cocheiro. Transformou seis lagardos em ajudantes. Em seguida transformou os trapos que ela vestia num vestido de dar inveja a qualquer mulher. E fez aparecer um par de sapatos de cristal.
 
Avisou a Cinderela que o encanto todo acabaria após o último toque da meia-noite.
 
Quando chegou na festa os olhos do príncipe (e provavelmente das outras mulheres) foram para ela. A partir de sua chegada o príncipe só ficou com ela. Adeus às outras.
 
Quando o relógio começou a bater indicando ser meia-noite, a menina teve um surto. Saiu correndo em disparada. Já imaginaram alguém de sapato de cristal correndo? Pois é… Ela estava correndo. Um dos sapatos se soltou nesta correria toda. Se correr com dois sapatos de cristal já é complicado, com um só deve ser pior ainda. Mas ela continuou correndo, entrou na carruagem que saiu em disparada, para, daí alguns segundos transformar-se em abóbora, os cavalos e o cocheiro em ratos, os escravos em lagartos e o seu vestido em trapos novamente. Ela voltou correndo pra casa para chegar antes das irmãs e da madrasta.
 
O príncipe pegou o sapato de cristal que ficou e no dia seguinte o rei declarou que a mulher em quem o sapato de cristal servisse casaria com o seu filho.
 
Então saiu um mensageiro do rei com o sapato em todas as casas para que todas as mulheres experimentassem. Não servia em ninguém. Chegou na casa de Cinderela e as irmãs experimentaram sem sucesso. Cinderela pediu para experimentar e, para a surpresa de todos, serviu perfeitamente. Então o mensageiro a levou para a presença do príncipe. Dias depois se casaram e foram felizes para sempre.
 
Bem, vamos a algumas (ou várias) coisas interessantes nesta estória.
 
Uma coisa que me intriga em todas estas estórias infantis envolvendo madrastas é o pai. Cadê o pai desta menina? Aparece só no início do conto apenas para constar que ela não foi filha de chocadeira e pronto. Eu imagino (tenho quase certeza) de que ele não morava na mesma casa porque não dá pra conceber a idéia de um homem ver sua filha andando aos trapos, dormindo no sótão de sua própria casa (porque pelo que me consta ele levou a mulher com duas filhas para dentro da sua casa) enquanto o resto dorme nos quartos. Eu até gostaria de imaginar como é isso… A Cinderela tinha o seu quarto, todo arrumado e etc. Chega a madrasta com duas filhas e coloca ela pra fora do quarto. Como foi esta transição? Ela não reclamou? E o pai? Ficou calado e colocou a própria filha no sótão? Aí está uma bela intriga que jamais será explicada.
 
A outra coisa que me deixa pensando é a festa que rei promoveu. Anunciar que o filho está a procura de uma esposa é o tipo de coisa que vai dar merda. O príncipe queria casar com alguém que goste ou qualquer uma? Pelo visto, qualquer uma servia. Não seria mais interessante proporcionar festas casuais e ele ficar observando se alguma mulher lhe interessa e, a partir disso, construir um relacionamento? Mas não. O rei preferiu partir para algo mais prático. Acho que fez isto porque não era com ele. Mas tudo bem, estas indagações não interferem no curso da estória.
 
A madrasta e as irmãs foram para a festa e não levaram Cinderela. Era de se esperar, obviamente. Eis que aí aparece uma fada. Proporciona tudo o que ela precisava para ir para a festa (carruagens, equipe de apoio, vestido e sapatos). Tudo feito com o encanto da fada. A única restrição: Meia-noite volta tudo ao normal. Mas que fada de araque é esta? Meia-noite é hora que a coisa começa a esquentar. Por que tem de acabar meia-noite? Não podia ser pelo menos as duas da manhã?
 
Ok. Meia-noite. Como era de se esperar, ela tem de sair correndo porque a coisa estava pra acabar. Dá tempo só de sair das vistas do povo todo. Na correria o maldito sapato de cristal fica pra trás. Fazer o que? Não tinha tempo de parar e pegar ele de volta. Daí a pouco tudo volta ao normal. Correção: QUASE TUDO volta ao normal. Esta é uma das grandes incoerências desta estória. Se o sapato de cristal era parte do encanto porque ele não desapareceu? Desapareceu a carruagem, a equipe e o vestido. Por que o sapato também não desapareceu???
 
O príncipe ficou encantado com ela. Então um mensageiro do rei saiu com o sapato de cristal experimentando em todas as mulheres. Aquela em que o sapato de cristal servisse casaria com o príncipe. Eu acho intrigante é o fato de que ninguém na cidade calça o mesmo número de sapato que Cinderela. Como assim? Ninguém? Só ela calça aquele número? E que meio mais ridículo de achar uma esposa. Se for assim ficaria fácil. Compro um sapato número 35 e digo que quem conseguir calçar este sapato eu caso. Obviamente não sou nenhum idiota pra fazer isto… Mas o príncipe é!
 
Óbvio que achou a casa onde Cinderela mora. O sapato serviu em Cinderela. Então ela foi levada ao príncipe que (após alguns dias) casaram e viveram felizes para sempre… É mais um casamento que eu acho que não dura três meses… O príncipe é um moleque mimado que anda na sombra do pai. Então tudo o que o pai quiser ele vai fazer sem hesitar. Que mulher aguenta isso por muito tempo? Outra coisa: Cinderela só casou com ele pra sair de casa. Amor??? Que amor que nada. Ela precisava de um apoio financeiro e conseguiu isto com o príncipe idiota. No fim das contas ela será rainha (o rei morre e é o príncipe que assume). Aí no decorrer do tempo ela vai se apaixonar por outra pessoa e colocar um belo par de chifres na cabeça do príncipe. Na minha opinião ele merece os chifres.
 
É curioso como as estórias terminam com um casamento. Casamento nunca foi sinônimo de felicidade. Tem de ter sentimento, dedicação, renúncia e muita paciência.