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Rapunzel

sexta-feira, novembro 16th, 2012

 

Estes dias eu me lembrei de mais uma estorinha infantil… Rapunzel…

Vamos relembrá-la?

 

Um casal vivia no meio do mato (eu diria no meio do nada) e o homem trabalhava como lenhador. Tinham como vizinha uma bruxa egoísta (na minha opinião, por se tratar de uma bruxa, egoísmo é o menor dos defeitos). No quintal da bruxa havia um pomar bonito e uma horta maravilhosa. A bruxa, que de boba não tem nada, construiu um muro bem alto cercando a sua propriedade para que ninguém visse o que havia dentro.

A estória diz que a esposa do lenhador estava grávida do primeiro filho e que de uma de suas janelas podia ver todo o quintal da casa da bruxa. Ficava horas olhando os rabanetes cheia de vontade.

Um dia a mulher ficou doente. Não conseguia comer nada e só pensava nos rabanetes. Aí o marido teve a brilhante idéia de pular o muro e pegar os rabanetes no quintal da bruxa. A sua esposa passou a alimentar somente destes rabanetes e, com isto, ele teve de voltar ao quintal da bruxa várias vezes para pegar os rabanetes.

Num belo dia a bruxa, juntamente com seus corvos, o surpreendeu dando um flagrante no seu ato. Apesar do homem tentar explicar-se a bruxa exigiu, como pagamento pelos roubos, a criança que estava por nascer. O homem ficou tão apavorado que não conseguiu negar o pedido da bruxa.

Pouco tempo depois nasce a criança. E pouco tempo depois do nascimento a bruxa aparece para buscar a menina. Os pais choraram e imploraram para não levar a criança, mas não teve jeito. Ela levou assim mesmo e deu o nome dela de Rapunzel.

Com o passar dos anos Rapunzel foi ficando cada vez mais bonita. Aí a bruxa prendeu ela numa torre no meio da floresta. Esta torre não tinha portas para entrar, só uma janela no alto. Para entrar Rapunzel tinha de jogar para fora da janela o seu cabelo em forma de tranças que a bruxa usava para escalar e chegar até o alto.

Um príncipe que passava por ali viu a cena da bruxa pedindo para Rapunzel jogar as tranças e escalando. Quando a bruxa foi embora ele gritou para Rapunzel jogar as tranças (da mesma forma como a bruxa fazia) e escalou indo encontrar a menina (que já estava bem crescida).

Os dois começaram a namorar, mas as escondidas da bruxa.

Num belo dia Rapunzel comenta para a bruxa que ela estava mais pesada que o príncipe. Foi aí que a bruxa descobriu tudo. Cortou as tranças de Rapunzel e seus corvos a levaram para o deserto. A bruxa ficou na torre esperando o príncipe. Quando ele chamou por Rapunzel a bruxa joga as tranças. Quando o príncipe estava chegando na janela a bruxa solta as tranças fazendo ele cair.

Na queda o príncipe cai em cima de umas roseiras e os espinhos furam seus olhos, tornando-o cego. Mesmo cego o príncipe foi procurar por sua amada, tateando e gritando seu nome. Andou por alguns dias até que atingiu o deserto e encontrou Rapunzel.

Quando ela o encontrou viu que estava cego. Começou a chorar e suas lágrimas caíram nos olhos do príncipe e ele voltou a enxergar. Aí os dois foram para o palácio, casaram e levaram os pais de Rapunzel para morar com eles.

A bruxa, com raiva, trancou-se na torre e nunca mais saiu de lá.

 

Esta foi a estorinha que eu tanto ouvi quando era criança. Gostava desta estorinha… Mas hoje é impossível não pensar no grande volume de inconsistências que existem.

Vamos lá.

A bruxa construiu um muro alto em volta da sua propriedade, mas da janela da casa do lenhador podia ver o pomar? Então o muro não cercava tudo, né?

A esposa do lenhador estava com desejo de comer rabanetes. Isto ficou bem claro. O que não ficou claro é que o cara tinha de roubar? Como assim? Eu tenho uma esposa grávida com desejo e isto é o suficiente para justificar um roubo? Ainda bem que ela queria rabanetes, imagine se ela quisesse caviar? Ele teria de roubar um banco pra comprar o caviar… Mas, ok, ele pulou o muro da propriedade da bruxa pra roubar os rabanetes. Mas aí vem a pergunta: Pra que ele pulou o muro (alto, como descrito na estória) se tinha uma janela que dava para o quintal da bruxa??? Não entendi pra que ele tinha de pular o muro.

Ok. Ele pulou o muro. Vamos ignorar este fato.

Vou ignorar o fato de que considero o desejo de gravidez como frescura… A bruxa pegou ele roubando os rabanetes. Detalhe: Estavam na cena a bruxa, o lenhador ladrão e os seus corvos… Se for corvo (o pássaro) é o mesmo que nada. Mas imagino que corvo seja o nome dado aos capangas dela. Aí sim é motivo de preocupação. Mas se for só ela dá pra encarar na porrada.

Agora sim começa uma parte que é bem comum em todas as estórias infantis: O homem (ou o marido) é um verdadeiro covarde, ou inerte. A bruxa cismou que queria como pagamento pelos rabanetes (vegetais, vamos lembrar) uma criança que nem havia nascido ainda. Querer ela pode querer o que quiser (eu quero muito uma Ferrari), mas ter é outra história. Se fossemos colocar as coisas em valores, uma criança (ou uma vida humana) vale muito mais do que alguns rabanetes. Dependendo da negociação a bruxa podia levar até a esposa…

Pouco depois deste episódio a criança nasce e os pais se desdobram em atenção e cuidados. E depois chega a bruxa exigindo a criança. O que me espanta é que o pai já sabia que isto iria acontecer. Por que não se preparou adequadamente? Uma arma qualquer já dava pra começar, ou fugir do lugar também resolveria. Mas não, o cara ignora o aviso dado anteriormente e segue a vida…

A bruxa aparece e leva a criança sem nenhuma briga, nenhuma luta… Que pais são estes??? A bruxa (uma mulher) quer levar uma criança e os pais fazem, no máximo, chorar? Se foi assim realmente foi melhor a bruxa levar mesmo.

A parte interessante é que a criança cresceu na casa da bruxa, que era vizinha do casal!!! Como era a vida daquele casal? Continuaram vivendo normalmente vendo a filha andando e correndo pela rua mas morando na casa da vizinha??? No mínimo estranho, não é?

A bruxa resolve colocar a menina numa torre no meio do mato. A torre não tinha porta, só uma janela bem lá no alto. Era a única forma de entrar. A menina já devia ser uma moça e nunca havia cortado o cabelo na vida (fico imaginando aquela cabeleira, sujeira, fungos, insetos, enfim, vida naquele emaranhado todo) então colocou a garota no alto da torre e para entrar ela jogava o cabelo (que estava na forma de trança), com isto a bruxa escalava a torre até chegar na janela.

Isto é, sem sombra nenhuma de dúvida, a maior incoerência desta estória! Alguém aí já experimentou fazer isto? Se não experimentaram, acho que vale a pena experimentar. Coloque uma corda no alto de uma árvore e tente escalar. Agora vamos lembrar que a bruxa não era nenhuma atleta em plena forma. E o outro lado? Como é que a garota aguentava sustentar o peso de uma pessoa no cabelo? Não sei se me entendem, mas imaginem alguém puxando o seu cabelo com a força do próprio peso. Nem gosto de imaginar. O fato é que isto torna a coisa toda impossível.

Pode ser que alguém diga que a bruxa era ajudada a subir (os corvos?), mas a estória desmente isto quando a Rapunzel diz que o príncipe pesava menos que a bruxa.

Já que começamos a falar do príncipe. Eu acho que ele podia ter dinheiro e beleza, mas no dia que Deus distribuiu inteligência ele não compareceu. Eu admitio ele usar as tranças da pobre garota apenas na primeira vez. As outras vezes bastava trazer do reino de onde ele era príncipe uma ESCADA!!! Dava até pra tirar a garota dali na segunda visita e deixa a bruxa caçar encrenca com ele pra ver no que vai dar.

Mas nããããooo… Ele preferiu forçar o couro cabeludo da garota toda vez.

Quando a bruxa descobre, corta as tranças dela e faz uma armadilha para o príncipe. Os corvos (sempre estes malditos corvos) levam a Rapunzel para o deserto e a deixa ali sozinha vagando. Enquanto isto a bruxa espera o príncipe para dar uma lição no pobre coitado. Ela joga as tranças, ele faz a escalagem e quando chega no alto a bruxa solta as tranças. Ele esborracha e, como dano, tem APENAS os olhos perfurados pela roseira… É um cara de muita sorte, não??? Não quebrou nenhum osso? Nenhum machucado. Não bateu a cabeça? Realmente muita sorte… Nasceu de novo, o rapaz.

Aí o sujeito sai perambulando cego (apenas cego) no meio da floresta até atingir o deserto. E isto durou vários dias. A Rapunzel, numa condição destas, com toda certeza estaria morta (sem água, num calor escaldante pelo dia e frio a noite). Mas ele também estaria morto, pois sem enxergar ele deve ter tomado vários outros tombos além do risco de ser comido por algum animal silvestre (lobo, urso, leão, onça, sei lá). Mas ele conseguiu chegar ao deserto, ou seja, saiu da frigideira para cair no fogo. O curioso é que ele encontra a Rapunzel no deserto… Como assim???

Ele encontra a garota, ela vê que ele está cego, chora e as lágrimas dela banham os olhos dele (ele devia estar no colo dela, né?) e com isto ele volta a enxergar! Ah, dane-se a medicina e a biologia… Lágrima alheia é o melhor remédio para cegueira! rsrsrsrs.

No final, obviamente, eles se casam… Mas felicidade e casamento costumam não andar de mãos dadas… rsrsrs… O legal é que ele fez uma coisa coerente: Levou os pais dela para morar dentro do reino onde ele é príncipe. Fico pensando se eles merecem isto… Mas ele é caridoso, então tudo bem!

A bruxa ficou com raiva e trancou-se na torre… Eu acho que não foi bem assim. Quando ela soltou as tranças para o príncipe cair, foi embora a única possibilidade dela sair da torre. Na verdade ela ficou presa lá, mas como era muito orgulhosa não deu o braço a torcer… Morreu, né? Sem comida e sem água morre fácil.

Eu lembro que desde pequeno eu questiona o motivo do príncipe não usar uma escada pra subir… A pessoa que me contava sempre me dizia que não usou escada porque não tinha… Eu engolia a resposta para não estragar a estória, mas o cara era príncipe!!! Se ele não tinha comprava uma. Se não tinha ninguém vendendo ele mandava seus criados fazer uma e pronto!

Esta é mais uma das estórias que não engolimos nos dias de hoje! E as crianças de hoje não aceitam este tipo de estória porque realmente são super incoerentes.

Mas tudo gira em torno de uma fantasia que gostaríamos que acontecesse, este estar preso e ser salvo… Ou salvar uma linda donzela em perigo… Mas para por aí… Salvar, tudo bem. Namorar, tudo bem. Casar? Não, nem sempre é uma boa idéia! rsrsrs