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Qual a sua deficiência?

quarta-feira, dezembro 24th, 2014

Deficiência

 

Não associem esta pergunta a uma deficiência meramente física. Porque não considero limitações físicas como deficiência.

Cadeirantes não são deficientes, apenas tem a locomoção limitada, mas vão a lugares onde ninguém foi (ou tem coragem de ir). Cegos não são deficientes, apenas tem a visão limitada (as vezes anulada), mas enxergam coisas que muito poucas pessoas vêem.

Então eu pergunto mais uma vez: Qual a sua deficiência? Todos nós temos pelo menos uma (e se for só uma você já pode ficar alegre, pois é raro quem tem apenas uma deficiência).

Deficiências sociais são as menos preocupantes e as que mais são vistas. Tudo o que é aparente esconde e mascara a realidade. Ver alguém com dificuldade de locomoção não nos mostra onde a pessoa chega com sua força de vontade e determinação. Ver uma pessoa com dificuldade de visão não nos mostra o quanto esta mesma pessoa é capaz de visualizar o íntimo dos outros.

Ok, já consegui (ou pelo menos fiz um enorme esforço para) desmistificar as características humanas que a sociedade considera como deficiências. Então vamos às verdadeiras deficiências (e são inúmeras).

Não vou relatar todas aqui, nem seria capaz de fazer isto. Vou falar de algumas mais drásticas e dramáticas para mostrar o que estou me referindo.

Deficiência de caráter. Em milhares de níveis e sob muitos aspectos. Somos capazes de burlar a lei para nos favorecer em detrimento a outras pessoas e situações. Desde o fato de roubar milhões até o fato de furar uma fila. Isto é uma deficiência lamentável e que a maioria esmagadora da população possui.

Deficiência de perspectiva. Muitos de nós não é capaz de se colocar na pele do outro antes de agir. As leis escritas não prevêem o bom senso humanitário. Isto é feito pela perspectiva da visão puramente humana. Não tem como traduzir em letras para compor uma lei, e mesmo que tivesse, não tem como obrigar as pessoas a serem boas. Passamos por um mendigo na rua e não temos coragem sequer de desviar um olhar para ele, somos incapazes de sorrir para quem tem menos recursos físicos, somos incapazes de doar um pouco de nós mesmos em favor dos outros (e quando fazemos isto queremos câmeras e holofotes).

Daria pra sair falando sobre isto um dia inteiro sem conseguir terminar a enorme lista, mas acho que já deu pra entender do que estou falando.

Temos inúmeras deficiências e fazemos questão de escondê-las, pois, para a sociedade somos “perfeitos”. E somos assim apenas (e tão somente) porque temos dois braços que se mexem, duas pernas que são capazes de sustentar o pesso de nosso corpo, um nariz que é capaz de respirar e sentir cheiros, dois olhos que enxergam e dois ouvidos que escutam. Mas isto não mostra o que realmente somos e nem o que realmente nos sustenta.

Não existem muletas, cadeiras, óculos, bengalas ou qualquer aparelho para as verdadeiras deficiências. Elas existem, nós as escondemos “debaixo do tapete” pois ainda consideramos como verdade a frase: “O que os olhos não vêem o coração não sente”.

Que tal parar de discriminar pessoas que tem o corpo apresentando alguma dificuldade e passar a olhar as nossas próprias deficiências para corrigi-las? Os verdadeiros deficientes podem ou não possuir limitações físicas. Mas considero as limitações físicas irrelevantes, perante ao quadro extremamente mais grave.