Traição

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Há muito tempo que eu quero escrever sobre traição e nunca encontrei tempo e inspiração para isto.

Tempo eu não tenho (e nunca vou ter), mas acho que estou inspirado, então vamos lá.

Vou me ater aqui a traição que acontece nos relacionamentos conjugais. São, na minha opinião, os mais complicados de se administrar.

Antes de qualquer coisa, vou excluir das minhas análises os comportamentos doentios da pessoas que traem por simples "esporte". São pessoas que eu considero que possuem uma falha no caráter. Traem pelo simples fato de trair, pelo fato de nunca conseguirem se manter íntegros num relacionamento. E isto acontece durante toda a vida da pessoa. Vem desde a adolescência e perdura pela fase adulta até a morte. Então vou considerar as pessoas que não são desta forma (que eu acredito ser a maioria esmagadora da população).

Agora vamos aos fatos. Duas pessoas estão num relacionamento e num determinado momento uma delas descobre que a outra está tendo um relacionamento com uma terceira pessoa. Configurou a traição.

Infelizmente (ou felizmente) eu penso diferente. A traição não aconteceu aí. O fato de haver uma terceira pessoa foi simplesmente a concretização da traição, foi meramente consequência.

Vamos partir do pressuposto que o casal está vivendo uma vida tranquila e nenhum dos dois pensa em trair o outro. Num determinado momento um dos dois acorda e pensa: Acho que hoje é um bom dia para ter um relacionamento extra conjugal! Simplesmente não acredito nisto. Não acredito que esta idéia brote do nada. Não acredito que alguém tenha esta brilhante idéia assim sem nenhum motivo.

Então já que o ato de haver uma terceira pessoa no relacionamento não é o princípio da traição, qual é este princípio? Qual é a causa?

Não sou católico, mas gosto muito da cerimônia de casamento católico. Os noivos se olham e dizem:
– Eu, Fulano, te recebo Fulana, como minha esposa e te prometo ser fiel, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe.

Mesmo que não haja nenhuma cerimônia religiosa o significado do casamento é exatamente o mesmo. Peguei o exemplo do juramento católico apenas como ilustração porque foi o que traduziu melhor o que eu quero dizer.

O ruim é que as pessoas encaram que a traição está configurada apenas na palavra "fiel" do juramento e se esquecem que também está presente no respeito. Quando acontece uma traição é sinal que muita coisa já aconteceu. Muita coisa já desestruturou o que chamamos de casamento (ou relacionamento). Quando a fidelidade cai é sinal que o respeito já foi embora há muito tempo. O campeão dos motivos é o respeito, aliás, é justamente a falta dele. Imaginem o respeito de uma forma mais abrangente. Existem inúmeras formas de desrespeitar alguém. Falei do ciúme num outro texto e o ciúme é uma das faltas de respeito. A coisa gira em torno de detalhes que acumulados chegam a níveis insuportáveis.

A traição de fato acontece quando alguém encontra outra pessoa que supre suas necessidades afetivas e necessidades como ser humano. A culpa fica, infelizmente, na pele de quem se rendeu a outra pessoa, ou a outro relacionamento, quando na verdade a responsabilidade é de quem provocou tudo isto. E isto não tem como ser analisado por ninguém. Não há investigador ou juiz capaz de apontar o verdadeiro responsável pela separação de um casal.

Por que estou dizendo tudo isto? Simples! É necessário que paremos de apontar nossos dedos acusadores sem conhecer o que realmente aconteceu! E é mais necessário ainda identificarmos onde (e quem) estamos traindo. Consciente ou inconscientemente o fato é o mesmo e a nossa responsabilidade também.

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