Proteção

 

Proteção

 

Vamos nos proteger? Mas… (aí vem a grande pergunta) Proteger de que???

O que aconteceria se colocássemos uma criança, assim que nasce, numa bolha que fosse capaz de isolá-lo de tudo quanto é doença? A resposta é simples: Assinaria sua sentença de morte quando ele resolvesse passear fora da bolha. O motivo é simples: Não tem resistência a nenhuma doença, nenhuma bactéria, nenhum vírus.

Perceberam a analogia com a proteção que queremos para nós mesmos?

O que aconteceria se não passássemos por nenhuma dificuldade? Ou se construíssemos uma proteção eficaz que nos mantivesse livres de quebrar a cara?

O que defendo aqui é o direito de quebrarmos a cara sim! É o nosso direito de errar e sofrer as consequências de nosso erro. Ninguém (em sã consciência) quer sofrer, mas daí a nos proteger contra tudo e contra todos para não sofrermos já é um pouco demais.

A melhor forma de não sofrermos é justamente não evitar qualquer sofrimento. Eu sei que pareço maluco dizendo isto, mas vamos raciocinar. Qual é o custo de evitar um sofrimento? Se este custo for o mesmo do sofrimento que tentamos evitar estamos (literalmente) saindo no prejuízo. O esforço que fazemos para evitar sofrer não deve ser causador de outros sofrimentos.

Curiosamente trafegamos na contramão quando tentamos evitar sofrimento. É comum ver pessoas que se antecipam ao sofrimento que não sofreram e já tomam atitudes como se já houvessem sofrido. Dá pra entender isto???

O sofrimento nos machuca. Cria feridas que viram cicatrizes mais tarde. Tudo isto nos ensina um caminho seguro para trilhar pela vida. Ao sofrermos aprendemos a não errar mais. Isto não significa que não iremos errar novamente. Machucar por cima de uma velha cicatriz. Mas será com menos intensidade e não irá doer tanto quanto da primeira vez.

É isto que eu tento fazer. Aprender com tudo aquilo que me faz sofrer (depois que o sofrimento passa, obviamente). O que me fez sofrer fica mapeado. Como um mapa num campo minado. Sei que onde não posso pisar e sei que se pisar quais podem ser as consequências. Mas SE EU DECIDIR PISAR NOVAMENTE não posso sofrer antecipadamente. Deixemos as coisas acontecer e administremos os acontecimentos sem nos reportar ao passado para decidir ou medir nossas ações futuras.

O fato é que evitar sofrimento eu estou evitando aprender a viver. Não é que devemos ser masoquistas e buscar o sofrimento. O sentimento é bem outro. Devemos, ao invés de sermos masoquistas, valentes e abrir o peito para recebermos o sofrimento. Quando fazemos isto iremos ter a grata surpresa de ver que não sofremos tanto quanto esperávamos.

Avaliem pra ver. Avaliem o que aprenderam após cada sofrimento e imaginem-se sem estes sofrimentos o que deixaria de ser aprendido.

Uma pessoa uma vez me perguntou: Qual o fato ruim da sua vida que você gostaria de retirar da sua memória agora? Eu respondi: Nenhum! A junção dos fatos bons e ruins em minha vida me faz o que sou hoje.

Foi aí que comecei a pensar nos sofrimentos de forma, digamos, mais equilibrada.

Vamos sofrer sim! E vamos parar de sofrer com as proteções que arranjamos.

Uma pergunta que não quer calar: Quem irá nos proteger do sofrimento que as nossas proteções geram???
 

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