Joãozinho e Maria

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Bom, aí vamos nós com mais uma historinha infantil.
 
Pra quem não se lembra vou resumir aqui.
 
Um lenhador vivia com a esposa e dois filhos (João e Maria). Detalhe, a esposa não era a mãe dos meninos, era a madrasta (sempre a madrasta).
 
Era tempos de vacas magras e eles estavam passando necessidade (coitados, não sabiam plantar). Aí a madrasta teve uma brilhante idéia: Diminuir o número de bocas para alimentar…
 
A idéia foi tosca. Levar os dois floresta adentro e soltá-los lá.
 
O problema é que os dois moleques ouviram a conversa toda. Então o João ajuntou um monte de pedras e quando foram chamados pela manhã, ganharam um pedaço de pão velho e o pai foi levando eles para a floresta. Só que no caminho o João foi jogando as pedras de forma que o caminho ficou marcado para garantir a volta segura.
 
Ok. A noite eles voltaram são e salvos.
 
O pai ficou feliz com o retorno, mas a madrasta não. Então trancou os dois num quarto e falou para levá-los mais longe ainda. Pela manhã deu a eles pão de novo. Mas o João não tinha mais pedras. Então teve uma idéia brilhante: Marcou o caminho com pedaço de pão…
 
Passarinho é um bicho safado que não respeita pedaço de pão no chão, comeram todos os pedaços. Então não havia mais a trilha para seguir.
 
Resultado: Eles não conseguiram achar o caminho de volta e ficaram perambulando pela floresta. Acharam uma cabana feita de chocolate, doces e biscoitos. Menino adora doce, então se esbaldaram. Comeram muito. Apareceu uma simpática senhora que os convidou para entrar e comer mais. Eles foram. Foram sedados e o João acordou dentro de uma jaula. Maria ficou como escrava da senhora que na verdade é uma bruxa.
 
A bruxa devia estar de saco cheio de comer só doce e queria carne. Então o plano dela era comer os dois (um assado e o outro ensopado). Só que o João era meio magrinho, afinal de contas não tinha muito o que comer onde ele morava. Então a bruxa decidiu engordar o João primeiro. Só que a bruxa não enxergava direito, aí todo dia apalpava o dedo do João para ver se estava gordo. O João mostrava a ela, ao invés do dedo, um osso de galinha. Então ela sempre achava que ele estava magro.
 
Num belo dia ela decidiu que ia comer o garoto daquele jeito mesmo, afinal de contas ela devia estar de dieta, comer gordura não faz bem ao coração. Mandou Maria preparar um caldeirão com água para ferver e disse que ia assar um pão. Acendeu o forno e pediu para Maria ver se o forno estava quente. A Maria que não é muito boba disse que não sabia olhar isto. A bruxa foi demonstrar e aí Maria a empurrou para dentro do forno e fechou, matando a bruxa carbonizada.
 
Nem preciso dizer que eles se esbaldaram! Comeram tudo do bom e do melhor e encontraram uma pequena riqueza que levaram com eles. Depois de muito andaram conseguiram reconhecer o caminho e foram até a sua antiga casa. O pai estava choroso porque a madrasta havia morrido de fome, mas ficou muito alegre em vê-los.
 
Com a riqueza que eles traziam não seria necessário preocupações com comida…
 
E foram felizes para sempre!
 
 
Bem, a história que é contada para as crianças acaba aqui… Não dá para não analisar esta historinha e tecer alguns comentários.
 
Toda história infantil tem um pai que é um banana. Que falta de criatividade, viu? O cara só sabia cortar árvore. Aí viu que as coisas não estavam rendendo e não tomou providência nenhuma? Que cara mais burro…
 
Vamos ignorar isto… Vamos para a próxima…
 
A sua esposa propõe uma coisa tosca e ele aceita, comprovando sua burrice.
 
Seu filho é esperto, arrumou uma forma de voltar para casa com as pedrinhas espalhas pelo caminho para fazer uma trilha.
 
Mas uma coisa fica sem explicação. Como é que ele conseguiu levar os filhos para a floresta pela segunda vez? Eles foram amarrados? Porque ninguém ia aceitar isto sem resistência. Ou será que foram hipnotizados? Ou então eles estavam brincando de seguir o mestre com o pai e no meio da floresta brincavam de esconde-esconde. É só assim para o pai conseguir escapar sem eles perceberem. Esta ficou sem explicação mesmo.
 
E outra: O João, ao mesmo tempo que foi inteligente marcando o caminho com pedras, foi extremamente burro marcando com pão. É claro que pão é comida e animais da floresta COM TODA CERTEZA irão comer. Ele não pensou nisto, porque se tivesse pensado seria mais inteligente guardar o pão para ele mesmo comer.
 
Tá bom. Mais uma coisa que engolimos. Vamos em frente.
 
Encontraram uma casa feita de doces, chocolates e biscoitos. Isto é a mais pura e deslavada mentira que já puderam inventar numa história infantil. É a coisa mais ridícula que já li em toda minha vida. Se isto fosse verdade a casa seria feita de doces, chocolates, biscoitos e FORMIGAS. Falei em formiga para ser generoso, pois (lembrem-se) a casa está no meio da floresta e qual animal não gosta de um doce? Ok. Vamos imaginar que a bruxa lançou um encanto para que nenhum animal ou inseto se aproximasse dali (notem que não é implicância de minha parte, eu até tento arranjar uma explicação plausível dentro do contexto da história).
 
A bruxa apareceu e deu um jeito de prender o João. A Maria não ia largar o irmão e mesmo porque a inteligência dela não permite que ela vá muito longe se conseguisse fugir. Então é melhor ficar e ajudar o irmão mesmo.
 
A bruxa não enxergava direito. Ponto negativo pra ela. Que fizesse um encanto para que enxergasse melhor, ué! Que raios de bruxa é esta??? Mas tudo bem…
 
Queria comer o garoto quando ele estivesse gordinho, então checava a sua massa corporal pelo dedo… COMO ASSIM???????? Será que ela não conhece barriga, bochecha, braço e perna? Mas sempre olhava pelo dedo. E o João mostrava um osso de galinha no lugar do dedo. É curioso que ela nunca estranhava que o moleque comia feito um pato e nunca engordava. Ou tinha muito verme (aí não valia a pena comê-lo, porque seria como comer uma goiaba com bicho), ou estava doente (também não valia a pena comê-lo, senão ia pegar a mesma doença) ou ele a estava enganando (o que era mais plausível). Mas, a velha queria ser enganada, né? Tudo bem… Se ela quer…
 
Uma coisa que achei interessante: A Maria mata a velha e os dois roubam seus tesouros. Isto tem um nome: Latrocínio (roubo seguido de morte, ou vice-versa). Leva pelo menos 30 anos de cadeia! Ninguém pensou nisso, né? Pois é… eu pensei!
 
Mas vamos imaginar que o tesouro dela era constituído de diamantes raríssimos e fáceis de carregar, pois eram duas crianças, então não dá para carregar um baú (por exemplo).
 
Eles saíram andando a esmo e… ohhhhhhh… descobriram o caminho de volta!!! Que enorme coincidência!!!!
 
Chegaram na velha cabana e o pai estava lamentando a morte da esposa (madrasta) que morreu de fome. O cara é realmente incapaz de sustentar a família. Abraçou os filhos e estes deram os tesouros que pegaram da bruxa.
 
A história termina com o velho "e foram felizes para sempre"… Mas com tudo isto que vimos não há a menor possibilidade de felicidade neste final.
 
O pai é um vagabundo, não gosta de trabalhar. Isto é fato. Com dinheiro no bolso com certeza iria se enveredar pela bebida, boteco, farra, etc. Com certeza ia colocar dentro de casa uma mulher tal qual a anterior. Provavelmente a próxima mulher ia adotar métodos mais eficazes para "eliminar" os filhos e se ela for inteligente vai tudo parecer uma acidente.
 
Mais uma história que engolimos quando éramos crianças… Interessante como não pensamos nisto quando éramos crianças.. Eu até cheguei a questionar como a casa de chocolate não era comida por animais, mas tive como resposta algo parecido com: "Não sei, só sei que foi assim".
 

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