Chapeuzinho Vermelho

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Esta é mais uma das estórias que eu ouvia quando pequeno. Acho que ela também merece uma boa análise.

Para quem não se lembra: Havia uma menina que tinha o apelido de Chapeuzinho Vermelho, porque vivia com chapéus e capas vermelhas (eu nunca soube o nome desta garota, não fazia parte da história pois nem a mãe e nem a sua avó sabiam seu nome).

Um dia sua mãe pede a ela que leve uma cesta de comida (na estória falava de guloseimas, mas…) para a sua avó que morava no meio do mato e estava doente. Nunca me explicaram porque uma velha doente morava isolada do mundo. Vai ver ela tinha uma doença contagiosa e foi isolada do convívio dos demais… Voltando para a estória, a mãe recomenda para que a menina pegue o caminho do rio (que é mais longo) pois pelo atalho da floresta havia um lobo mau que devorava as pessoas. No meu entendimento eu JAMAIS mandaria um filho meu correr um risco destes, que mãe mais desnaturada…

A menina distraiu-se e acabou passando pelo caminho da floresta. Ela não conhecia o que era lobo, nem sabia do que se tratava. Então quando o lobo lhe apareceu ela não o reconheceu. Ele disse ser um anjo da floresta (o safado mentiu) e perguntou para onde ela estava indo. Ela mais que depressa disse que estava indo levar a cesta de comida para sua avó. Então o lobo disse que ia na frente afastando os perigos para que ela não tivesse nenhum problema. Ele chega na casa da avó primeiro que ela e a devora. Veste suas roupas e deita na cama.

Quando a menina chega, bate na porta o lobo responde (tentando disfarçar a voz) dizendo que pudesse entrar. Ela entra e aí acha estranho aquela avó daquele jeito e começa aquele diálogo que já sabemos de cor sobre as mãos, os olhos, o nariz e, principalmente, a boca da suposta avó. O lobo se revela tirando as roupas e sai atrás dela correndo.

Sorte da menina que havia alguns caçadores perto que ouviram os gritos e mataram o lobo com um tiro certeiro antes que fizesse algum mal a ela.

Ela fica lamentando pois ele havia devorado a avó. Mas os caçadores disseram que aquele tipo de lobo costumava apenas engolir suas presas sem mastigar, sendo assim, a avó ainda estava viva. Vendo que a barriga do lobo se mexia eles a abriram e retiraram a avó sã e salva.

A partir deste dia houve tranquilidade na floresta por causa do lobo mau que havia morrido.

Como podem ver eu não aguentei nem contar a estória toda sem tecer alguns comentários. Mas consegui me segurar. Vamos a algumas incoerências.

Convenhamos, ô lobo burro, heim? A menina chega pra ele e diz que vai para a casa da avó que fica na floresta. Ele vai na frente e devora a avó. Então ele sabia onde ficava a casa. Por que diabos ele não devorou a menina de uma vez e foi para a casa da avó para a sobremesa? Ou então melhor ainda: Devorava a menina, comia o lanche como sobremesa e no dia seguinte comia a avó. Ou melhor dizendo: Por que aquela velha ainda estava viva se ele sabia onde ela morava? Mas não… Ele preferiu ir na frente correndo e comer a avó primeiro. Tem gosto pra tudo, né?

A menina distraiu e acabou indo pelo caminho da floresta. Bem, haviam dois caminhos, um era pelo rio outro pela floresta… Simplesmente não tem como errar. Num tem água corrente e noutro tem árvores. Como errar??? Se ela errou de verdade, sinto muito, mas esta menina é muito lerda!

Ok. Ela errou o caminho, vamos admitir isto pra não complicar muito. Mas não saber o que é um lobo? Vamos voltar um pouquinho. A mãe disse a ela para não ir pelo caminho da floresta porque lá HAVIA UM LOBO MAU (nem vou comentar sobre a maldade de um animal silvestre que procura satisfazer sua fome). Se ela não sabia o que (ou como) é um lobo não era a hora de fazer uma perguntinha simples? Qualquer criança, por mais inocente (ou lerda) que seja perguntaria: O que é um lobo? Realmente esta foi uma coisa super incoerente.

Aí ela viu um animal na floresta que se apresentou como “Anjo da Floresta”. Nossa, que lindo! Este anjo foi na frente para protegê-la. Que anjo bom! Chegando na casa da avó, quando ela descobre a farsa toda, reconhece o lobo (???). Mas ela não sabia o que era lobo, como assim ela reconheceu o lobo??? Aquele era, afinal de contas, o Anjo da Floresta (e um anjo bom, diga-se de passagem).

Agora vamos para a primeira das grandes incoerências desta estória. Os dois únicos animais que eu sei que são capazes de engoliar uma pessoa e ela continuar viva são: A cobra do filme Anaconda e a baleia Mobi Dick do desenho do Pica-Pau. O resto tem de, no mínimo, partir o alimento para engolir. Se este lobo tivesse uns 20 ou 30 metros de altura eu até poderia acreditar que uma pessoa coubesse no seu estômago intacta. Mas um lobo deste que está na estória? Não! Definitivamente não! E o pior é que ele engoliu a velha e ainda ficou com fome, ou seja, tinha um lugarzinho lá dentro para a menina!!! Só se o corpo dele não tivesse nenhum órgão e fosse constituído apenas de estômago… Mesmo assim depois de comer a velha inteira duvido que ia sobrar espaço para uma garotinha.

A outra grande incoerência é a velha sair lá de dentro intacta. Aplausos para o caçador que deu um tiro na cabeça do lobo, porque se ele atira no peito matava a velha também.

Uma coisa que me chama muito a atenção é que depois que o lobo foi morto, houve paz na floresta. Que bom que lá não havia onças e outros animais que possam causar problemas. E que bom que este lobo era o ÚNICO lobo na floresta.

Esta era uma das minhas estórias favoritas. Ainda bem que cresci!

 

 

 

Marcelo Torres – 18/01/2012

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