Mecânica do Amor

Mecânica do Amor

 

Em todas as ocasiões da minha vida, me peguei devotando amor por alguém ou por alguma coisa.

O amor é um sentimento interessante. Não conseguimos mensurar o tamanho dele. Não existem parâmetros que podem ser utilizados para comparar ou dizer que um é maior do que o outro.

Eu não posso dizer que amo mais ou amo menos. É claro que existem graus de importância que cada pessoa tem na minha vida, com isto geram sentimentos diferentes. São diferentes formas de amar. Como exemplo, posso dizer que não tenho como comparar o amor que tenho a meus filhos com nenhum outro amor. Mas todos eles são importantes.

Não tenho como dizer como acontece na vida das pessoas. Sei como acontece na minha vida e isto é relativamente fácil de explicar. O amor é um sentimento que brota do nada. Com exceção do amor filial e familiar (que é nato), os outros existem todo um processo, que é comum.

Eu analiso todos que se aproximam de mim. Existem pessoas que me cativam na primeira instância, por demonstrar valores que eu considero essenciais para um relacionamento amigável. Estes valores são baseados em (tão simplesmente) respeito. Haja o que houver, o respeito tem de estar presente. A partir disto tem outros valores que eu vou observando, pois já foi levantado o interesse inicial. Havendo reciprocidade, a pessoa passa a ter acesso a algumas coisas de minha intimidade, já começo a contar alguns casos (corriqueiros) de foro íntimo, sem muita intensidade.

Bem, o fato é que o sentimento maior acontece quando eu vejo valores admiráveis, qualidades que as vezes eu nem tenho. Aí sim eu já passo a fazer questão de ter a pessoa por perto.

Em raros casos, eu posso chamar este sentimento de amor. O sentimento é único, não há outro nome para dar, não existe outra forma de considerar. A partir desta definição eu trabalho minha razão para verificar se este sentimento pode ou não ser colocado pra fora. A razão é sempre implacável neste aspecto. Existem pessoas que, apesar de ter eu tido este sentimento, minha razão censurou. E os motivos são os mais diversos. Mas quando a razão censura, acontece uma briga interna, pois o sentimento quer ser colocado pra fora, e para que isto aconteça é necessária a assinatura da razão. Caso a razão não aprove, o sentimento fica preso. O problema do sentimento preso é que, como todo prisioneiro, tende a retrair em si mesmo. Se a prisão é perpétua, ele logo morre (e a razão comemora esta morte).

Por várias vezes a razão teve de atuar como policial, juiz e carrasco (ao mesmo tempo). Em algumas vezes o sentimento logo reconheceu que a razão estava correta e ficou sereno, sem forçar a barra para querer a liberdade. Em outras vezes a briga é feia (e com argumentos muito válidos, tão válidos que quase convencem a razão).

Tanto anseio do sentimento não é a toa, ele tem ânsia de se mostrar, tem vontade de mostrar toda a intensidade que tem e está contida pela maldita razão. A força deste sentimento é imensa, só que adormecida com um poderoso calmante.

Cada vez que o sentimento percebe que a razão aprovou uma pessoa, já arruma suas malas achando que vai ser liberado para sair.

Atualmente a razão está cantando músicas de ninar para o sentimento, para ver se ele dorme mais rápido e deixa de incomodar querendo forçar a saída.

Coloquei a razão como um pequeno vilão e o sentimento como a eterna vítima. O que não é bem uma verdade. O sentimento fica no peito e a razão no alto da cabeça. A hierarquia está bem clara. A razão tem a visão do ser como um todo e o sentimento tem a visão do momento. Os impedimentos que a razão alerta tem um fundamento, um embasamento que não podem ser ignorados (apesar disto acontecer com frequência. Já tivemos provas que o sentimento não é muito em governar. Temos que dar o seu devido crédito e acatar suas recomendações.

O que poucos sabem é que a razão é, na verdade, o protetor do sentimento. Guarda o sentimento como quem guarda uma criança dos perigos desconhecidos. Assim como um pai zeloso, primeiro investiga, analisa, pondera, observa. Somente depois de uma avaliação criteriosa é que libera (ou não) o sentimento para agir. Só que na saída, tece uma lista de recomendações indicando a intensidade que pode chegar para não se machucar.

Vamos prosseguindo, deixando a razão com a chave do calabouço muito bem guardada (ninguém entra e ninguém sai), até descobrir que o terreno lá fora é seguro o suficiente.

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